Pequena crônica da noite de Natal

(Quando um vizinho besta está ouvindo sertanejão e me fazendo ouvir junto com ele).
25 de dezembro de 2007 – 01:00

A enorme massa negra cruza os céus acinzentados daquela cidade fria. A imprensa agita-se, nervosa, frenética, louca para cobrir cada passo, cada movimento daquilo. Ela passa, solene, em ritmo firme. “De onde virão eles?”. “Vêm do norte”.
Eventos inesperados agitam qualquer cidade. Ainda mais uma cidade pequena. Aquela aparição, assim repentina, surpreendeu a todos. Era óbvia a relação entre aquilo que viam e o que ouviram no dia anterior. Aqueles estrondos, ao longe, tão fortes, sem ritmo, descompassados, aleatórios e desapressados. Estrondos que deviam ser ensurdecedores para quem estivesse perto. Que seria tudo isso?
E agora, eles aparecem no céu. Um grande sinal negro que anuncia que algo aconteceu. Terá sido algum desastre? Um acidente? Catástrofe? Ou será o anúncio duma nova era de progresso para aqueles homenzinhos assustados?
Que se pode dizer? Os boatos correram apressados rumo à imaginação. Nos tempos modernos, em que muitas crianças nunca viram uma galinha (viva), que pensariam daquilo? Boatos. O pregador já anuncia: nada de bom vem do norte…
Segundos. Juntando todos, talvez formem-se alguns minutos. No início, muitas interjeições. Depois, muitos adjetivos e perguntas. E, logo, mais interjeições.
Fim da cena, cidade pequena, e o assunto era um só. “Você viu quantos morcegos? É que estão extraindo brita onde eles moravam. Tiveram que se mudar.”

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